A Gaveta da Melodia Azul

Quando uma pequena fita azul desaparece, uma guarda-joias musical ajuda a descobrir que cada tesouro gosta de ter uma casa própria.

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Ilustração de uma criança a abrir uma guarda-joias musical enquanto luzes coloridas saem da caixa.

A Leonor tinha uma fita azul muito fininha.

Não era uma fita qualquer. Era a fita que ela usava para fazer laços nas histórias que inventava.

Quando a fita estava no pulso, a Leonor dizia:

- Hoje vou descobrir uma coisa pequena e importante.

Mas, naquela tarde, a fita desapareceu.

A Leonor procurou dentro da caixa dos lápis, debaixo da almofada, atrás do livro dos animais e até no bolso do casaco amarelo.

Nada.

Em cima da cómoda estava a guarda-joias musical. Tinha uma pega de pequenas pérolas, uma gaveta escondida e desenhos de arco-íris que pareciam sorrir quando a luz batia neles.

A Leonor abriu a tampa com cuidado.

Plim... plim... plim...

A música começou devagarinho.

Lá dentro, uma fada pequenina girou diante do espelho, como se estivesse a acordar de uma sesta muito comprida.

- Bom dia, casa dos tesouros - disse a Leonor, baixinho.

A fada não respondeu com palavras. Girou uma vez, depois outra, e a música fez uma curva no ar.

Foi então que a Leonor reparou: a concha branca estava no lugar dos botões, o botão dourado estava no cantinho das fitas, a pedrinha lisa estava dentro da gaveta e a pena amarela estava encostada ao espelho.

Estava tudo misturado.

- Talvez a minha fita esteja perdida porque os tesouros se esqueceram das suas casas - pensou a Leonor.

Sentou-se no tapete e começou a arrumar.

Primeiro, pôs a concha no compartimento maior.

- Tu vieste da praia. Precisas de espaço para ouvir o mar.

Depois, colocou o botão dourado no cantinho redondo.

- Tu és pequenino, mas brilhas como uma lua de bolso.

A pedrinha lisa saiu da gaveta e ficou junto da concha.

- Tu também gostas de histórias de água.

A pena amarela ficou perto do espelho.

- Assim podes ver se continuas leve.

A música rodava sempre, plim... plim... plim..., e a fada girava como se estivesse a desenhar um círculo invisível.

Quando tudo parecia no sítio certo, a Leonor fechou a gaveta.

Mas a música fez uma nota diferente.

Plim!

- Falta uma coisa? - perguntou ela.

A Leonor puxou a gaveta outra vez.

Lá no fundo, escondida como uma minhoca de céu, estava a fita azul.

- Encontrei-te!

A fita não estava sozinha. Trazia agarrada uma estrelinha de papel que a Leonor tinha recortado na semana anterior.

Ela riu-se.

- Afinal foste numa viagem espacial dentro da gaveta.

A Leonor enrolou a fita com calma e guardou-a num compartimento comprido. Ao lado, pôs a estrelinha de papel.

A fada continuou a girar.

No espelho pequeno, a Leonor viu o seu próprio sorriso. Não parecia um sorriso grande de festa. Parecia um sorriso manso, daqueles que sabem uma coisa boa.

Os tesouros não precisavam de ser muitos.

Também não precisavam de ser caros, brilhantes ou perfeitos.

Podiam ser uma concha, um botão, uma pena, uma fita, uma pedrinha.

O importante era terem uma história e um lugar para descansar.

Antes de fechar a tampa, a Leonor disse:

- Amanhã trago-te outro tesouro. Mas só um. Para não ficares com cócegas na gaveta.

A música abrandou.

Plim... plim...

A fada deu a última volta.

E, quando a tampa se fechou, o quarto ficou muito quietinho.

Mas a Leonor sabia que, lá dentro, a fita azul dormia ao lado da estrelinha de papel.

E que, sempre que fosse preciso encontrar uma coisa pequena e importante, bastava abrir a caixa, ouvir a melodia e perguntar:

- Qual é a casa deste tesouro?

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